A Estratégia

Minha história com a Pedra Riscada é antiga. Há uns 10 anos, passei por perto e nunca mais a esqueci. Em 2009, participei da conquista da via Place of Happiness que percorre a aresta norte da montanha. E este ano (2013), durante os treinos na academia de escalada com o Val (Valdesir Machado) que é meu parceiro habitual de escaladas, surgiu a ideia de ir novamente para o leste mineiro. Joguei para ele o plano de conquistar uma via em estilo alpino na Riscada, ou seja, numa pegada, saindo do chão e só descendo depois de bater no topo! Como de praxe, olhamo-nos com aquela cara de alegria e terror ao mesmo tempo, pois sabíamos que seria uma estratégia muito mais arriscada que fixar cordas e retornar ao solo. Dali, pra colocar tudo no papel e planejar nossa próxima empreitada foi um pulo. E foi um pulo também para descobrir que não conseguiríamos carregar tudo sozinhos, pois precisaríamos de muita água e proteções fixas. Bater 100 chapeletas na mão também seria inapropriado, pois calculamos meia hora cada proteção o que nos tomaria em torno de 50 horas! Precisávamos carregar uma furadeira e muitas baterias. Necessitávamos de mais um “insano”, alguém que fosse fortão, pois eu estava em meio a uma crise da minha coluna, e que tivesse experiência e tempo para entrar para a quadrilha. Bastou uma ligação e a resposta do Willian Lacerda foi esta: “não perco esta por nada!”.

A Viagem

Uma semana depois estávamos percorrendo os 1500 quilômetros que separam Curitiba-PR da Pedra Riscada-MG. Fora o combustível adulterado que quase nos deixou na estrada, a Raquel (moça do GPS) ter tentado nos enganar e a dificuldade de encontrar um hotel depois de 20 horas de viagem, chegamos bem na cidadezinha denominada São José do Divino, leste mineiro. Fomos diretamente para a base da parede, caminhando apenas 20 minutos pelo leito de um riacho que passa na base, o que facilitou a coleta da água que levaríamos montanha acima. Decidimos a linha, voltamos ao carro, separamos equipamentos e tornamos a subir. Como ainda era dia, o “metabolismo acelerado” (Val) decidiu que iria conquistar a primeira enfiada da via. E assim o fez, terminando já à noite e tendo as primeiras impressões da Riscada. O Willian nos esperava com o jantar pronto. Percebemos que a sintonia da equipe estava intacta, apesar do tempo que nós três não fazíamos uma escalada deste porte juntos.

O Reboque de Equipamentos

Dia 3 de junho de 2013, iniciamos nossa sanha de acordar às 5 da madrugada. Um balde de café, mochila nas costas e partimos para a grande aventura! Levávamos 200 metros de cordas, 120 chapeletas (proteções para fixar na rocha), furadeira, cinco baterias, 40 litros de água, comida para 5 dias, equipamentos de escalada e o meu violão, obviamente, pois meus amigos gostam de rock’n roll de platô! O plano era: Ed guia, Willian assegura e vai rebocando a carga, enquanto o Val vai puxando água e arrumando as coisas a serem içadas. Parei duas vezes para bater chapeleta (proteção fixada na rocha) na segunda enfiada da via antes de esgotar os 60 metros da corda e bater a parada (parada é o ponto onde nos reunimos para iniciar o próximos trecho, aí bate-se sempre duas proteções).

Enquanto isso, o Willian estava tendo problemas no reboque. Para adiantar as coisas, conquistei o terceiro esticão em solitário usando o gri-gri (aparelho que trava a corda em caso de queda), pois era fácil e com fendas e árvores para proteger em caso de queda. Atingi, desta forma, o primeiro grande platô da via que tinha pelo menos uns 100 metros de extensão e nenhum lugar plano para dormir! Tive de retornar para ajudar meus parceiros, a carga não vinha. Tivemos aí nossa primeira mudança de planos. Não era possível rebocar carga ali, pois a pedra é extremamente abrasiva, cheia de pedrinhas coladas e qualquer tipo de haulbag (bolsa de reboque) enrosca o tempo todo. Dali pra frente teríamos de levar as coisas nas costas.

500 metros em um dia!

Segundo dia de escalada – de café da manhã 180 metros de jumareio (subir pelas cordas) com mochilas insanas nas costas, com todo o equipo e mais água e comida para 3 dias. Havíamos dormido do platô a 150 metros do chão e já tínhamos aberto mais 180 metros acima dele. Assumi a ponta da corda com o Willian me assegurando enquanto o Val ia transportando o restante da carga parede acima. Vertical e delicado se mostrou o sétimo esticão e ainda tive de desescalar um trecho porque a maldita retinida (corda auxiliar) enroscou numas bromélias secas e não consegui puxar a furadeira.

Em seguida o Willian guiou mais uma e aí o sol começou a nos destruir. Na parede a temperatura beirava os 30º C e com ansiedade comecei a guiar o esticão de número 9 que nos levaria a o segundo mega platô da via, onde poderíamos nos abrigar na sombra, pois além do calor tínhamos outro problema que era o consumo excessivo de água. Bati duas chapas no início e a parede deitou, fui escalando rápido e quando faltava uns 2 metros acorda acabou. Gritei para o meu parceiro começar a escalar em simultâneo e rezei pra ele não cair, pois já estava a uns 40 metros acima da última proteção que havia batido. Sombra, ufa! Puxamos todas as cordas, e eu e o Val começamos a fixá-las para cima, escalando pelo platô que era uma transversal montanha acima. O “fortão” Willian assumiu o porteio do restante da carga que não conseguíamos levar.

Quando o sol se escondeu por detrás da Pedra Riscada, pois estávamos na face leste, chegamos ao final do mega platô transversal, na parte em que há uma mata bem grande, e obviamente nenhum lugar plano para dormir... Mas o Val queria subir imediatamente; lembro bem da conversa em que tentávamos fazê-lo parar um pouco e comer algo, mas não conseguimos dissuadi-lo. Escolheu uma bela canaleta formada pela água da chuva, que, na verdade, são os riscos da Pedra Riscada, e lá se foi; no final começou a ter câimbras e não conseguia mais erguer a furadeira. Peguei água, comida, lanternas, chapeletas e lá fui atrás do nosso herói.

Conquistei mais duas enfiadas, as de número 14 e 15, completando 830 metros de via! Rapelamos para dormir no platô, aonde o Willian nos esperava com suco, queijo e cracóvia (tive de abrir exceção ao vegetarianismo), e com uma bela notícia: tinha encontrado um buraco na pedra cheio de água que se acumulou com as chuvas. Já não tínhamos mais o fantasma da falta de água!

O Ataque ao Cume

A paisagem pela manhã foi um presente divino. Mar de nuvens com amanhecer avermelhado. Café da manhã perfeito. E o dia estava mais fresco, com sol entre nuvens. Retomamos o ponto em que havíamos parado no dia anterior, que era exatamente aonde nossa via cruza com a via Bodífera Ilha, primeira rota conquistada na Pedra Riscada.

Apesar de que há uma lenda na cidade de que um grupo de aventureiros locais sem noção alguma de escalada e munidos de uma corda de amarrar vaca, havia atingido o cume antes dos escaladores; mas até hoje não conseguiram provar o feito. Quando a Bodífera Ilha foi conquistada, os escaladores encontraram restos de uma fogueira no grande platô que é usado para acampamento. Isso já seria uma grande conquista, pois para chegar já teriam de ter escalado uns 150 metros de 5º grau sem nenhuma proteção fixa além das poucas arvorezinhas que estão na parede!

Continuando a nossa história, a partir deste ponto, fizemos mais 150 metros de escalada moderada e atingimos o terceiro platozão da parede. Uma nuvem nos engoliu e ficou frio. Peguei a “punta caliente” da corda e tentei escalar rápido, pois não sabíamos quantos metros havia para cima. Só sabia que até ali a via já tinha mais de 1000 metros, fora os trechos de mato que subimos!

Depois de duas chapas, veio a chuva! Não podíamos acreditar, depois de tanto esforço, íamos morrer na praia. Abrigamo-nos sob um toldo de nylon que trazíamos, eram 10 horas da manhã e a canaleta que estava conquistando acabara de se transformar em uma cachoeira! A sensação era de frustração total durante aquela hora que ficamos ali esperando a chuva passar, mas se os deuses da montanha queriam nos testar para ver se merecíamos a honra de abrir aquela via, teríamos de provar a nossa capacidade. Estas situações requerem um pensamento fora do convencional, e assim decidimos escalar com a parede molhada. Só depois de dar a ideia foi que lembrei ser eu quem pontearia!

Foi pavoroso, o pé não parava, a mão deslizava e só tínhamos um cliff de buraco (os cliffs são uns ganchos que usamos para progredir quando não há agarras em algum trecho, fazendo um furo de 6mm e encaixando o gancho ali). Senti-me mal por ter de bater mais chapeletas do que as que teriam sido necessárias. Do alto da última que bati na canaleta pude ver que a parede deitava um pouco e saí em livre. Corda pesando, furadeira pendurada, pedra molhada, tensão total. Eu me agarrando em pedrinhas do tamanho de uma caixa de fósforos e progredindo com minha respiração ofegante, já muito próximo da mata do cume da montanha. Quando bati a parada saiu um solão e em minutos a parede secou, deste ponto ainda subi mais uns 30 metros até alcançar o mato “grosso” e me certificar que este vinha do topo. Gritei: “mata cumbrera uhuh!!!!”.

O topo da Riscada é uma mata fechada e ainda teríamos de caminhar meia hora mais ou menos para atingi-lo. Eu e o Val já tínhamos estado lá e o Willian não fez questão de subir até a “topinha”, como dizem os divinenses, Então, iniciamos os 20 rapéis, pois ainda tínhamos muito trabalho pela frente e estávamos meio receosos quanto ao clima.

O Retorno

Rapelar é o preço que se paga por subir e sempre é o perigo maior de uma escalada. A regra é descer com calma e cada um cuidar dos outros para que não façamos nenhum procedimento errado. Sempre desço na frente, não sei porque, mas meus parceiros acham que tenho memória boa e consigo achar os pontos de rapel (paradas) com mais facilidade. Sempre faço uma cara de quem sabe aonde está indo e eles confiam, apesar de às vezes me perder completamente. Rapéis em diagonal com mochilas de 30 quilos nas costas não é legal, e quando jogamos as cordas e elas formam uma teia nas bromélias é horripilante. Nunca disse tantos palavrões durante uma descida, o melhor teria sido levar uma bolsa para a corda e não atirá-la para baixo. Chegamos à noite no platô 1, a apenas 3 rapéis do chão, mas ali havíamos deixado um monte de peso. Pensei que não iríamos chegar ao chão naquele dia, mas depois de descansar um pouco, tocar um pouco meu violãozinho e de lembrar que no carro tinha muita comida e um chão plano, decidimos deixar a montanha.

A via Divina Liberdade ficou incrível e tem tudo para se tornar a via normal da Pedra Riscada, pois é muito bonita, segue uma linha natural e é relativamente fácil de encontrar, pois possui muitas chapeletas. O rapel é pela via. Deve-se tomar cuidado com as agarras, pois sempre pode haver alguma pedrinha que se descole, teste sempre antes, pois em vias de montanha não se cai!

Como queríamos achar um nome que fosse uma homenagem à cidade mais acolhedora que conhecemos por aquelas bandas (São José do Divino), denominamos a via, por sugestão do Willian, de Divina Liberdade, que é também o nome de uma música do Manu Chao que escutamos durante a viagem! Agradeço a meus parceiros pela vibe incrível e por terem cuidado de mim durante a expedição para que eu não machucasse ainda mais minha “coluninha de vidro”, como eles próprios a chamam. Ao Edimilson Duarte de São José do Divino pela habitual hospitalidade e também às empresas que nos apoiam: Conquista, Território e Snake!

Texto: Edemilson Padilha